The Leftovers Segunda Temporada Crítica

A supremacia do caos na segunda temporada de The Leftovers

O que seria preciso dizer aqui para convencer a todos de que The Leftovers é uma das melhores séries da atualidade? Não é um entretenimento fácil, com certeza. Mas essa é uma qualidade e não um defeito. Apesar do mistério sobre o qual se desenvolve o roteiro, a busca por respostas está longe de ser o centro das ações dos personagens. É muito menos sobre saber o que houve e muito mais sobre o que fazer a partir desse evento que abalou as estruturas da sociedade e de cada pessoa em particular. Como seguir em frente? Como conviver com esse fato e com a insegurança, afinal não se sabe ao certo se foi um evento único ou se outros similares ocorrerão em algum momento. A Partida Repentina deflagrou o vazio que existe dentro de cada um, expôs a vulnerabilidade das relações e o quão frágeis são os pilares que mantém nossa estabilidade mental, emocional e social. A impotência diante de um evento tão sem sentido quanto aterrador traz aos poucos o caos à todos que aparentemente pareciam resignadamente continuar com a vida da melhor forma possível. Negação, cultos absurdos, agressividade, niilismo, estas foram algumas das abordagens usadas pelos personagens para sobreviver nesse mundo pós-apocalíptico disfarçado de normal.

A segunda temporada começa com um grupo de nativos americanos, numa época antes da chegada dos europeus ao continente. Eles dormem em uma caverna quando uma mulher, grávida, sai do meio deles por alguns instantes e logo um terremoto faz com que haja um desabamento sobre todos que dormiam, ficando vivos apenas a mulher e seu filho que nasce ali mesmo. Ela cuida dele o melhor que pode, mas sozinha tem dificuldades para encontrar comida e água. Uma cobra venenosa ameaça o bebê e ela ataca o animal desesperadamente, matando-o, mas não sem antes ser por ele mordida. Ela começa a definhar e morrer pelo veneno, sua preocupação é apenas com seu bebê, que ficará indefeso, sozinho no deserto. Quando a morte é certa ela vê um sinal, uma águia voando alto sobre eles. Ela fica tranquila pois acredita que aquilo significa que tudo vai ficar bem. Um outro grupo de nativos passa por ela enquanto ela agoniza e uma mulher entre eles pega dos braços dela o bebê e vai embora. A vida continua, apesar de todo infortúnio. Logo na sequência vemos que aquele local, centenas de anos depois, se tornou em Jarden, Texas, cidade que passou a ser conhecida como Miracle por não ter tido nenhum habitante desaparecido na Partida Repentina. Supostamente eles são todos gratos e muito felizes, pois foram “poupados”. A cidade se torna um ponto turístico com acesso restrito e supervisionado. Para essa cidade se mudam Kevin Garvey, Nora, Jill e Lilly. Lá eles conhecem os Murphy e vai ficando cada vez mais claro que a felicidade em Miracle é tão fachada quanto em qualquer outro lugar. Miracle é onde as pessoas não tem o direito de sofrer, embora sofram. O clima é denso e logo fica claro para Kevin e Norma que não existe paraíso para eles.

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Na verdade Kevin se depara com seu verdadeiro inferno interior e tem que enfrentar, literalmente, fantasmas do seu passado. Tom Perrota e  Damon Lindelof trazem ainda mais do impossível e do inacreditável para a trama, sem medo, sem urgência de dar  respostas, com toda a naturalidade e elegância. E são muitas as cenas sem sentido e que, no entanto falam profundamente com nosso íntimo, como quando Kevin precisa cantar num certo Karaoke para voltar para sua família. Parece bobo demais e ele não quer, mas depois ele é convencido de fazê-lo e a música que ele canta, naquele contexto, dificilmente algum espectador sai incólume ao assistir.

Enfim, mais uma ótima temporada se encerrou e a próxima promete muito. A cena final mostrou para mim uma coisa: que o caos pode reorganizar as coisas de uma maneira que por vias normais seria impossível. E o caos está por toda parte em Miracle. Aguardemos para saber o que mais ele trará

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