A Bruxa Crítica

Fanatismo e isolamento sufocantes em A Bruxa

Contra todos os meus instintos fui ao cinema ver a estreia de A Bruxa, filme dirigido pelo iniciante Robert Eggers, que tem gerado um alvoroço na mídia e vem sendo aclamado como o melhor filme de terror dos últimos anos.

Pra começo de conversa os 93 minutos de terror que eu esperava assistir foram triplicados com as filas quilométricas para a compra do ingresso e para entrar na sala. Foram horas de calor, desconforto, pessoas brigando com atendentes, outras simplesmente desmaiando na fila, além de quedas de energia. A bruxa estava mesmo solta! Particularmente achei promissor.

Finalmente, depois dessa Odisséia, estávamos bem acomodados e o filme começou. Não darei nenhum spoiler, mas vou dar uma breve impressão minha a respeito do filme.

Uma família, exilada da comunidade de colonos ingleses cristãos recém estabelecida na Nova Inglaterra, vai viver isolada às margens de uma antiga e sombria floresta. O clima é pesado, melancólico. Essa família, extremamente religiosa, se apega a fé para suportar os fardos que um a um vem sobre ela. A fotografia e a trilha sonora simplesmente caótica assinada por Mark Korven te fazem entrar num estado de puro desconforto, enquanto a angústia crescente dos personagens vai chegando à um nível insuportável, cujo desfecho só pode ser o pior possível. O fanatismo deles não traz qualquer esperança, a culpa está sempre presente, embotando o amor deles um pelo outro. Rezam incessantemente mas não há chance de redenção, apenas o medo da condenação, destino certamente inevitável.

A Bruxa

O elenco está ótimo. Ralph Ineson interpreta o pai, William, um homem que parece ter uma convicção inabalável, mas é, na verdade, um fraco. A mãe é Katherine, uma mulher piedosa que, a cada nova tragédia, é levada mais e mais ao limite de sua sanidade. É interpretada por Kate Dickie (Lisa Arryn de Game of Thrones). A filha mais velha e protagonista do filme é Thomasin (Anya Taylor-Joy). Ela é, muitas vezes, a voz da razão da família. Meio criança, meio mulher, o isolamento para ela vai se tornando claustrofóbico. Todos os eventos que se abatem sobre os personagens acontecem em volta dela e o destino vai tecendo sua teia de modo a não deixá-la escapar. Os filhos mais novos desempenham também papéis relevantes na trama e merecem destaque os ótimos pequenos atores que os interpretaram: Harvey Scrimshaw (Caleb), Ellie Grainger (Mercy) e Lucas Dawson (Jonas).

Ouvi e li algumas pessoas dizerem que o filme era muito parado, no que eu discordo. Ele toma seu tempo para fazer o público submergir nessa densa atmosfera. Algumas pessoas não se permitem ter essa experiência e ficam que nem bobas, dando risadinhas histéricas e fazendo comentários bestas. Amiguinho, é perceptível seu medo, se não aguenta não vá para atrapalhar a sessão do restante das pessoas, OK? De minha parte fiquei mesmo angustiada e, pra falar a verdade, também triste e incomodada o tempo todo. Poucas cenas me assustaram de verdade, mas posso dizer que, pelo menos duas vezes, eu baixei os olhos, chocada. Os minutos finais eu cortaria, tranquilamente, para o bem do filme. Foi explícito e desnecessário, desfez o clima e não deixou quase nenhum mistério no ar. Talvez eu esperasse outra reação da protagonista nesses últimos minutos desperdiçados. O fato é que sinto falta do terror psicológico em torno do monstro produzido exclusivamente pela maldade humana. Toda essa atmosfera de culpa cristã, de tabus, fanatismo e isolamento poderiam ser um cenário perfeito de horror sem a necessidade de um motivo sobrenatural. Não foi dessa vez, mas ainda assim recomendo. E assista no cinema, pois a trilha sonora proporciona uma experiência que vale o ingresso.

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