Capitão Fanstático Crítica

Capitão Fantástico: Um filme para rir e chorar

Um casal resolve criar seus filhos em meio a natureza selvagem, bem longe dos vícios e confortos da cidade. Sujeitando-os à rigorosa disciplina física e intelectual eles visam criar seres humanos extraordinários. Esse é o pano de fundo de Capitão Fantástico, filme estrelado por Viggo Mortensen que estreou na última quinta-feira nos cinemas de todo o país. É um pouco irônico que esse filme tenha estreado no Natal pois, apesar do tema familiar característico dos filmes lançados nessa época, a família Cash, protagonista da história, não comemora o Natal. No mês de dezembro eles comemoram o nascimento de Noan Chomsky, filósofo e linguista norte-americano.

O início do filme lembra um programa do National Geographic. Numa floresta um veado está tranquilamente procurando comida. Ele mal percebe que está sendo observado por um caçador que está camuflado, coberto de lodo da cabeça aos pés. De longe um homem e algumas crianças observam a cena. O caçador aproveita o momento oportuno e abate o animal, abre seu corpo e retira o que parece ser o fígado. Ele come o órgão ali mesmo e o homem, que é na verdade seu pai, aparece e declara concluído seu rito de passagem para a vida adulta. A cena é agressiva e bela ao mesmo tempo.

Matt Ross, o diretor do longa, diz ter se baseado na própria experiência de ter crescido em comunidades alternativas para escrever o roteiro. Mas se engana quem acha que o filme vem para condenar a vida moderna e louvar o estilo naturalista. Claro que há fortes críticas, especialmente em relação a alienação a que estamos cada vez mais sujeitos com nossos computadores, vídeo games e celulares e ao modo como prejudicamos nossa saúde com sedentarismo e má alimentação.  Mas o filme não serve como ativismo e mostra o lado bom e ruim de cada lado dessa moeda.

Capitão Fanstático

As crianças caçam, pescam, cultivam e colhem o próprio alimento, costuram as próprias roupas, fazem os próprios brinquedos, aprendem a manusear armas, estudam as mais variadas disciplinas, desde política até física quântica, lêem clássicos da literatura, treinam corrida, escalada e todo tipo de atividade física e a noite, ao redor de uma fogueira, ainda cantam, tocam instrumentos e dançam. Mas nem tudo é perfeito no paraíso que eles idealizaram e estão construindo. A mãe do clã, Leslie, passa a sofrer de distúrbio bipolar, doença que a faz se afastar de sua família de tempos em tempos para receber tratamento. Durante um desses períodos sua condição piora e Ben, seu marido e pai da família, recebe a notícia de que ela acabou dando fim na própria vida. Matt Ross mais uma vez sinaliza que não quer com esse filme levantar a bandeira do estilo de vida alternativo ao não incorrer no lugar-comum de retratar problemas psiquiátricos como sendo exclusivamente causados pelo estresse da vida na sociedade moderna.

Leslie seguia a filosofia budista e por isso deixara expressa em testamento sua vontade de ser cremada. A família dela, rica e tradicional, resolve enterrar seu corpo. O pai de Leslie, Jack, não tem bom relacionamento com Ben e o proíbe de comparecer ao enterro por considerar que o genro não fez o bastante para ajudar sua filha. Mas as crianças resolvem que não obedecerão o embargo do avô e convencem Ben a guiá-los numa missão: ir até o Novo México e impedir o enterro do corpo da mãe, realizando os últimos desejos dela: ser cremada e ter as cinzas jogadas na privada de um banheiro público.

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Não há mocinhos e bandidos nesse filme. Mesmo Jack tem motivações com as quais é possível ter empatia. E Ben, apesar de dar ferramentas e referências para que os filhos pensem por si mesmos, muitas vezes se mostra tão autoritário quanto o sogro. Seu experimento carece de um objetivo maior. Criar pessoas tão autônomas, conscientes e capazes para mantê-los isoladas de uma sociedade onde poderiam fazer a diferença pra melhor chega a ser egoísmo.

Mas Ben é assim: ele está tão certo em seu caminho quanto está perdido e são seus filhos que vão ensinar muitas coisas para ele sobre como ser um bom homem e pai. Mais um acerto de Matt Ross nesse filme foi o elenco. Viggo Mortensen foi a escolha perfeita para viver Ben Cash, seu protagonista. O nosso eterno Aragorn está tão confortável como o capitão fantástico do título que nem parece estar atuando. As crianças também dão um show, com destaque para George Mackey como Bodevan, o primogênito prodígio do clã.

O final poderia ter vindo antes, na cena de arrancar lágrimas ao som de Sweet Child O’Mine, do Guns. Seria uma conclusão perfeita para essa bela história. O diretor preferiu dar um final mais didático que não era necessário, mas que ao menos é coerente com a mensagem que ele tenta passar ao longo do filme.
Capitão Fantástico é uma comédia dramática que faz exatamente isso: rir e chorar. Um dos melhores filmes de 2016

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