Silêncio, de Martin Scorsese, vai além do entretenimento

Silêncio (Silence, 2016) é um drama histórico dirigido por Martin Scorsese baseado no livro Silence de Shūsaku Endo sobre a busca de dois jesuítas a um missionário português chamado Cristóvão Ferreira que, segundo boatos, teria se tornado apóstata no Japão do século XVII.

Após a revolta camponesa na província de Nagasaki conhecida como a Rebelião de Shimabara (1637-1638) o catolicismo foi banido do Japão e tornado ilegal. Os padres e missionários foram expulsos e os cristãos remanescentes, os Kakure Kirishtans (cristãos ocultos) realizavam os serviços quase sempre sem supervisão e de forma clandestina. Chega ao conhecimento do padre português Sebastião Rodrigues (Andrew Garfield) em Macau que seu mentor, o missionário Ferreira (Liam Neeson), que fazia missão no Japão há alguns anos, teria negado a fé cristã, constituído família e se tornado budista. Padre Rodrigues, junto com o Padre Francisco Garupe (Adam Driver) decide ir ao Japão saber a verdade, apesar do risco.

Com a ajuda do guia Kichijiro (Yosuke Kubozuka),  um ex-cristão que negara a fé para salvar a si mesmo da tortura e morte, eles encontram a vila de Tomogi, cheia de cristãos que vivem uma vida dura e cheia de privações. Lá os padres vivem com eles todas as dificuldades e agonias, sentindo o peso de serem os guias espirituais daquelas pessoas e, ao mesmo tempo, os responsáveis por trazer sobre aquelas pessoas simples a ira do Inquisidor Inoue Masashige (Issey Ogata).

A cinematografia de Rodrigo Prieto (Passageiros, O Lobo de Wallstreet) é linda. A história, apesar de se situar no Japão, é toda rodada em Taiwan e traz belas e ricas paisagens com belas cores. A trilha sonora de Kim Allen Kluge e Kathryn Kluge é minimalista, quase meditativa, com sons da natureza e alguns coros vocais mesclados, mas o que predomina é o silêncio, tema central do longa. O silêncio se faz sentir na crescente dúvida do protagonista que, no decorrer de sua missão, vai ficando insuportável. A confiança com que ele começa sua jornada vai, pouco a pouco, cedendo espaço para os questionamentos. Mas as perguntas não obtém respostas, as dificuldades aumentam gradativamente e o sentido de sua missão vai ficando mais e mais perdido, sufocado pelo silêncio às suas preces cada vez mais desesperadas. Seria um teste para sua fé? A Igreja falhara no Japão? Deus existe afinal de contas?

Silêncio Scorcese

A angústia do personagem é sentida pelo público. O filme é bem longo e se arrasta enveredando por todas essas questões interiores, fazendo o telespectador imergir nelas e na violência que, embora cruel, é quase poética, como se espera que seja a morte de mártires de uma causa. Mas vale a pena?
Não espere resposta. Não espere a conclusão da missão. Não espere uma redenção. Ninguém deveria morrer para poder seguir uma fé ou ser obrigado a abandona-la para viver.

Issey Ogata como os Inquisidor,  Yosuke Kubozuka e Liam Neeson estão muito bem. Adam Driver representa bem a dúvida e a frustração que convivem lado a lado com uma vontade inquebrável. Garfield não é meu ator favorito e posso ver vários outros atores no papel do Pe. Rodrigues, mas ele fez um trabalho competente.

Silêncio é uma experiência e só pode ser avaliado dessa maneira. O filme era um projeto antigo de Scorcese e levou vinte e cinco anos para sair do papel e, definitivamente, não é entretenimento. É um retrato verdadeiro da violência, da culpa, do medo e da busca pelo sentido de existir, tão natural ao ser humano.

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