Big Little Lies Primeira Temporada

A importância de séries como Big Little Lies

Big Little Lies é uma série da HBO baseada no livro homônimo de Liana Moriarty e sua trama poderia ser comparada a de uma novela global ou de uma série do tipo Desperate Housewives. Três mulheres de uma comunidade de ricaços buscam felicidade e auto-realização apesar de seus conflitos e segredos. Mas Big Little Lies é mais do que dramas em mansões à beira mar. A narrativa começa a contar a história pelo final e já de cara nos é mostrado que uma daquelas pessoas morreu sob circunstâncias consideradas  suspeitas pela polícia.

À partir daí flashbacks mostrando alguns dias antes do trágico evento se mesclam com depoimentos de testemunhas dados à polícia no processo de investigação da morte.
Num primeiro momento o mistério parece ser a identidade do morto e quem o matou (se é que foi assassinato). Entretanto, ao conhecer os personagens, um outro mistério é introduzido na história. A socialite Madeline (Reese Witherspoon) conhece a recém chegada em Monterrey Jane (Shailene Woodley) por acaso e uma instantânea afinidade surge entre elas. Madeline apresenta Jane para sua grande amiga Celeste (Nicole Kidman) e esse é o trio que domina a história.

Cada uma tem um segredo que, em diferentes momentos, é compartilhado com as demais. Madeline vive com a culpa de ter traído seu marido atual. Celeste, uma mulher linda e que, aos olhos de todos, vive um casamento perfeito, sofre abusos por parte do marido acima-de-qualquer-suspeita Perry (Alexander Skarsgård) e Jane cria seu filho sozinha por ter sido concebido através de um estupro. Sim, é pesado.

Ao final do primeiro dia de aula uma menina diz ter sido estrangulada por um garoto de sua sala. Na saída, diante de todos, a menina aponta para Ziggy, o filho de Jane, dizendo ter sido ele o agressor. A mãe da garota, a empresária bem sucedida que tem mania de controle Renata Klein (Laura Dern), faz ameaças para o menino na presença de todos e Madeline e Celeste se postam em defesa de Jane e Ziggy, o que inicia uma espécie de guerra-fria entre Madeline e Renata. Madeline é aquela que está sempre brigando por tudo. Briga com o ex-marido por causa da filha, briga com a filha que não quer dar ouvidos aos seus conselhos, briga com o atual marido para descontar suas frustrações, briga com Renata por causa de Jane, briga até com o Prefeito da cidade. A personagem vibrante e passional é interpretada maravilhosamente por Reese Witherspoon. Parece ser a heroína da série, mas a trama de Celeste começa a mostrar seu peso e Nicole Kidman brilha indiscutivelmente na pele da esposa que vai aos poucos entendendo a gravidade da situação em que se encontra. Já Jane é uma figura enigmática. Procura viver da melhor forma pelo bem de seu filho, mas o trauma que ela guarda e a pressão por dizer algo sobre o pai de Ziggy onde quer que vá fazem com que ela fique prestes a explodir. Para piorar o filho é suspeito de agredir uma colega de sala e, apesar de sentir que ele é inocente, se pega pensando se não seria o DNA do pai delineando a personalidade da criança. Shailene Woodley  transmite bem esses conflitos e faz um ótimo trabalho. Laura Dern como a megera Renata e Zöe Kravitz como Bonnie, a atual jovem esposa do ex de Madeline, também são destaques do elenco.

Apesar do possível assassinato anunciado no início do programa e dos abusos sofridos por Jane e Celeste, a série não é sobre crime e investigação. A série é sobre mulheres e a difícil tarefa de viver num mundo comandado por homens. Quase todos os depoimentos mostrados (dados por homens e mulheres) trazem uma definição pejorativa à respeito dessas mulheres proeminentes. Nenhuma palavra ruim sobre Perry ou outro dos maridos. Renata é julgada por ser uma mulher independente, Madeline é tratada como louca por ser alguém que persegue seus objetivos, Bonnie é odiada por ser considerada sexy demais, Celeste (segundo um dos depoimentos) não se comporta sexualmente como uma mulher de sua idade deveria. Além das opiniões alheias existem os abusos. Jane fora vítima de estupro, Celeste está num casamento abusivo, a pequena Amabella volta da escola todos os dias machucada e não tem coragem de revelar quem realmente está fazendo isso. Gordon, o marido de Renata, aborda Jane numa cafeteria e, apesar de verbalmente falar em processo, fisicamente deixa claro que sua ameaça vai muito além. Certamente ele não teria a mesma postura ao se dirigir a um homem. Afinal não é verdade o quanto tantos homens gostam de afirmar sua superioridade física sobre as mulheres? Quem é mulher sabe.

A série vai construindo essa tensão, acrescentando outros dramas menos sombrios mas absolutamente dentro do contexto, como a questão da traição feminina, ou a virgindade da mulher. Perto do final o grupo de mulheres se encontra numa situação onde já não cabe mais vilanizarem-se mutuamente. As picuinhas são deixadas de lado e emerge uma tribo, uma verdadeira matilha de mulheres dispostas a defenderem umas às outras até as últimas consequência contra o verdadeiro monstro. A conclusão traz o alívio necessário para o clímax e segue-se paz e a sensação de segurança, tão ausentes durante a história. A produção da série é padrão HBO e a trilha sonora, bem pop, é muito boa também. Uma ótima série que aborda situações que ninguém gosta de falar, tratadas muitas vezes como normais e cotidianas, mas que são na verdade questões de vida e morte. Infelizmente muitas mulheres se identificarão, mas que sirva para reflexão não só das mulheres mas dos homens também. Parabéns HBO pela relevância do tema.

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