Okja – Review

Okja, o mais novo filme original da Netflix, traz a voracidade do mundo corporativo em contraste com a ligação verdadeira e profunda entre uma criança e seu animal, no caso um porco gigante.

A história começa com a CEO Lucy (Tilda Swinton) apresentando a empresa alimentícia Mirando, numa tempestade de de informações propositalmente impossível de discernir. O objetivo aqui é convencer, não informar. A empresa acabara de criar uma nova espécie animal, um tipo de porco gigante com alguns traços que lembram os de um cão que, supostamente, seria a solução para o problema da produção de alimento no planeta. A estratégia desenvolvida pela empresa é de enviar alguns exemplares desses animais para diversos países ao redor do mundo de modo a apresentá-los para as pessoas. Um dos países a receber o porco gigante é a Coréia do Sul, onde o animal, uma fêmea, fica aos cuidados de Hee Bong e de sua neta Mikha, que vivem numa fazenda nas montanhas, longe da civilização.

A primeira parte do filme lembra alguns filmes infantis que já, construindo a relação da menina com o animal que dá nome ao filme  num clima de pura aventura. Okja, a porca gigante, é muito bem feita digitalmente. Detalhes como a textura de sua pele e o modo como seu olhar transmite emoções mostram um excelente trabalho de efeitos especiais. Okja tem uma aparência incrível além de ser dócil e fiel a menina como um cãozinho de estimação

Mas Okja é propriedade da empresa Mirando e chega a hora em que ela deve ser enviada a Nova York para competir com outros de sua espécie pelo título de melhor porco gigante. Mikha não aceita abrir mão de sua amiga e está disposta a enfrentar qualquer coisa por ela. Essa parte da trama traz ótimas cenas de ação, culminando na aparição de um grupo defensor dos animais liderado por Jay (Paul Dano). A cena dele explicando para Mikha logo de cara todo o plano do grupo serve como esclarecimento para o espectador. Teria sido bem melhor ter essa explicação diluída aos poucos. Mostrar é sempre melhor que falar.

No grupo há um membro extremista que se recusa a comer qualquer coisa, inclusive um tomate, citando os agrotóxicos usados em sua produção e os poluentes emitidos pelos caminhões usados em seu transporte. Na cena o personagem está falando de dentro de um caminhão em movimento, utilizando alta tecnologia que, com certeza, tem seu custo para o meio ambiente. Desse modo vemos também uma crítica ao radicalismo que não representa uma verdadeira saída para o problema.

O choque de realidade fica por conta de algumas cenas que mostram a crueldade que existe por traz da produção da carne. Não chega a ser um documentário para propagar o veganismo (o próprio diretor, Bong Joon-ho de “O Expresso do Amanhã“, é fã de churrasco), mas a intenção é mostrar o quão distantes estamos daquilo que realmente está por trás do alimento que compramos nos supermercados e que consumimos cegamente, levados por rótulos. Não há qualquer culpa pois basta comprar de empresas que preguem o capitalismo sustentável, que preza mais pela propaganda do que por atitudes realmente positivas. Palmas para a Netflix que deu ao diretor liberdade para fazer seu filme sem cortes, algo difícil de acontecer no cinema hollywoodiano. Em Cannes o filme foi aplaudido e, depois que se revelou uma produção Netflix, foi vaiado. O futuro chegou e o “cinema de verdade” precisa aproveitar a onda e se aperfeiçoar, não lutar contra.

Okja review O elenco está excelente. A pequena atriz Seo-Hyun que vive Mikha faz o papel de forma natural. Tilda Swinton já havia trabalhado com o diretor Bong Joon-ho em Expresso do Amanhã e aqui repete a ótima parceria. Jake Gyllenhaal faz um papel bem caricato que beira o exagero mas mostra que é um dos melhores atores de sua geração.

Há alguma previsibilidade do roteiro, com resoluções simples demais. O tom do filme também pode parecer confuso nessa mistura de fantasia, aventura, humor e drama. O filme parece infantil para adultos, mas pode ser muito forte para crianças. De qualquer modo não se pode negar a inteligência com que o diretor e co-roteirista abordou esse tema para o qual a grande maioria da população insiste em virar o rosto: o consumismo e o impacto que ele tem sobre nosso planeta.

Há uma barreira do Oscar em relação a filmes que saem em streaming. Para a academia, aparentemente, apenas o que sai nos cinemas é considerado filme. Okja mostra a qualidade que esse tipo de produção pode atingir, com elenco de peso, ótimos efeitos e temas relevantes para a sociedade, trazendo um assunto delicado de modo leve, palatável, por assim dizer. Num mundo onde até a produção de filmes segue a lógica do consumo voraz e vazio é bom ter uma opção com mais conteúdo e que proporcione alguma reflexão quando digerido (se me permitem o trocadilho).

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