Já Não Me Sinto Em Casa Nesse Mundo – Review

Quem nunca teve um dia daqueles que dá vontade de bancar o Michael Douglas em Um Dia de Fúria? Gente má educada no trânsito, furando filas, pessoas incompetentes, egoístas, rudes. Às vezes não parece que você está tendo apenas um mau dia e sim que o mundo todo está podre e frio, um péssimo lugar para se viver. Geralmente nessas situações uma pessoa comum respira fundo e segue em frente, dizendo a si mesmo que “amanhã será um dia melhor”. Ou entra num estado de espírito que só melhora com o uso de remédios psiquiátricos e/ou álcool. Antes um bem estar artificial que nenhum, certo?

Ruth (Melanie Lynskey) é uma solitária auxiliar de enfermagem que tem tolerado com polidez o fato de se ver cercada de pessoas grosseiras, egoístas, intolerantes e preconceituosas. Em silêncio ela pega as mercadorias que outros derrubam das prateleiras do mercado, não reclama quando alguém usa o caixa rápido para passar duzentos itens enquanto ela segura uma caixa de leite pacientemente na fila, pega o cocô de cachorro deixado em seu gramado por algum cão da vizinhança e por aí vai. Apesar de não demonstrar, internamente Ruth passa por uma crise existencial amenizada por ansiolíticos e muita cerveja. A gota d’água acontece quando sua casa é invadida e seu computador, seus remédios e a prataria de sua avó são roubados. Do que uma pessoa decente é capaz se for levada ao seu limite? Essa é a premissa do filme Já Não Me Sinto Em Casa Nesse Mundo, vencedor do prêmio do grande juri no festival de filmes independentes Sundance desse ano.

Ruth, após ter sua casa roubada e perceber que as autoridades estavam pouco se lixando para o que havia lhe acontecido, resolve ir atrás por conta própria dos bandidos para reaver seus bens. Não se trata, claro, do valor material. Se trata de uma missão quixotesca em nome de um mundo melhor. Tudo o que Ruth quer, em suas próprias palavras, é que as pessoas parem de ser cretinas (na verdade o termo usado não foi bem esse).

Ruth não tem exatamente um plano e não faz ideia do tipo de pessoas com as quais irá lidar. Pior: o caminho que Ruth decide trilhar não só põe em risco sua pele mas também sua integridade moral. Felizmente ela encontra um sidekick que, apesar de estranho, tem o material necessário para manter nossa heroína longe do lado escuro da Força. Tony (Elijah Wood) tem o cabelo de padawan, ouve heavy metal, usa um nunchako e shurikens (estrelas ninja) como armas e frequenta a missa no final de semana. Um aliado de fazer inveja a Samwise Gamgee.

img2O filme tem uma mistura de tons alternando humor negro e comédia de absurdo, drama, romance, suspense e até um pouco de gore. Macon Blair faz uma promissora estreia como diretor e realmente deixa aquela vontade de assistir seu próximo trabalho. A fotografia e o trabalho de câmera também estão muito competentes, mas são as atuações o ponto chave da produção. Elijah Wood está incrível como o esquisito e adorável Tony, mas é Melanie Lynskey quem domina o filme interpretando de forma inteligente e nada pretensiosa a tímida Ruth. Seu ar ingênuo e olhar dócil impedem que a vejamos como uma justiceira badass qualquer, mesmo quando ela banca a durona. Ruth é, até o fim, uma pessoa comum levada a uma situação extrema cujos desdobramentos acabam muito além do que ela poderia imaginar. O clímax vai agradar fãs de Tarantino e irmãos Cohen. Gostei muito e recomendo.

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