Mãe! A parábola de Darren Aronofsky e o misterioso liquido amarelo

Quando eu pensava que Noé (Noah, 2014) tinha afogado a pretensão ambiciosa de Darren Aronofsky de trazer a Bíblia para o cinema, eis que ele vem com “mother!” (assim mesmo, com “m” minúsculo e ponto de exclamação no final), onde ele, simplesmente, conta o conflito doméstico entre o casal formado por Deus (o Todo Poderoso) e a mãe Terra! Se Aronofsky é religioso eu não sei, mas uma coisa é certa: ele é um homem com fé inabalável…em si mesmo.

O filme começa mostrando uma mulher (ou entidade feminina) em chamas e uma casa se restaurando sozinha à partir de uma espécie de cristal. Na sequência outra mulher, interpretada por Jennifer Lawrence, acorda em sua cama e procura pelo marido, mas ele não está deitado ao seu lado. Ela se levanta para tentar encontrá-lo e a câmera invasiva de Aronofsky a acompanha por toda a enorme casa de estilo vitoriano. Essa câmera praticamente não abandonará o rosto da personagem, então se prepare para uma overdose de cabeça de Jennifer Lawrence, mais até do que tivemos da de Natalie Portman em Jackie.

Javier Bardem vive o marido, um escritor que está buscando inspiração para uma nova obra. Ele se ocupa disso enquanto ela prossegue reformando o imenso imóvel sozinha, cômodo por cômodo, parede por parede. Em dado momento a mulher explica que faz isso na tentativa de construir um paraíso para ambos. Infelizmente esse desejo se torna impossível de realizar com a chegada de um casal de estranhos, que o homem hospeda sem consultar a esposa. Começa aí o terror psicológico que vai te prender a cada cena e tentar fritar seus miolos.

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Esse primeiro bloco é bem intenso e compõe a melhor parte do filme. O espectador se envolve numa tensão crescente que, às vezes, parece ser fruto de puro delírio. Senti falta de uma trilha sonora mais marcante, que realmente viesse reforçar o suspense. Ainda assim foi possível experimentar a agonia da personagem que, impotente, vê a paz de seu lar se perder pouco a pouco. A casa e a mulher se confundem, a ponto de ela sentir em si mesma por cada coisa que seus hóspedes indesejados quebram, sujam ou desorganizam. Com o passar do tempo vamos percebendo que alguma coisa está errada e que o que estamos vendo pode não ser a realidade. Confesso que, em certo ponto, essa dúvida foi minha principal agonia. Será tudo real? Será que a mulher está enlouquecendo?

Mas aí o filme entra de cabeça no mundo dos signos e alegorias e fica claro o significado daquele caos todo: estamos diante de uma representação da bíblia. Deus, o Criador, tem uma companheira que é, ao mesmo tempo, sua esposa e seu lar, por assim dizer. Ela se dedica inteiramente a Ele e isso lhe basta, mas o sentimento não é recíproco e Ele quer trazer outras vidas para dentro do paraíso harmonioso que ela se esforça para construir.

Vou parar por aqui e dizer apenas que, na metade do filme (mais ou menos), a verdadeira intenção do filme se revela e a magia própria do cinema se estilhaça, quando percebemos que estamos vendo uma obra com uma mensagem pré definida (embora não muito clara).

Vou listar aqui alguns pontos-chave para compreensão do filme:

-A casa e a mulher formam uma unidade que representa a Terra;
-O marido é Deus;
-Ed Harris, o primeiro hóspede, é Adão;
-Michelle Pfeiffer é a segunda a chegar na casa. Ela representa Eva;
-O Cristal que eles quebram representa o Fruto Proibido (adivinhem o que eles fazem depois de quebrar o Cristal?);
– O dono da casa cerra a porta do escritório com tábuas para que os hóspedes não entrem lá outra vez e a esposa os expulsa. Essa cena representa a expulsão de Adão e Eva do Paraíso;
-Os filhos do casal de hóspedes são Abel e Caim;
-A esposa engravida e o marido, que é escritor, se inspira e começa a escrever uma nova obra. Estamos falando do Novo Testamento e a criança por chegar seria o Messias. Isso fica bem claro a medida que o filme avança;
– A mulher toma um líquido amarelo misterioso de tempos em tempos no filme. Acredito que o significado esteja no radical da palavra yellow (amarelo, em inglês). Yell, além de ser o radical da palavra yellow, também significa gritar, clamar. O dono da casa sempre inclui em seus discursos e escritos o termo cry out, que também significa clamar. Ou seja: Ele fala nos clamores, mas quem os absorve e os sente é ela.

-Por fim ela traz o Apocalipse e Ele tem que recomeçar usando o amor dela. Nesse ponto podemos entender que ambos formam um tipo de unidade, Alfa e Ômega, Princípio e Fim.

Mãe! O misterioso liquido amarelo

Demorei para decidir se gostei ou não do filme. A primeira parte é tão instigante e carregada de tensão que você não consegue desgrudar o olho em cada cena! No terceiro ato você começa a ligar os pontos e compreende que o filme é uma parábola desse novo aspirante a profeta chamado Darren Aronofsky. É muito gratificante entender o mistério, mas a sensação que fica depois é de embuste. Fui enganada, me peguei vendo uma alegoria rasa que mostra a velha mulher dedicada e passiva que está sempre a postos para satisfazer as necessidades do homem e limpar sua bagunça, sendo por isso comparável a imagem da terra como a grande representação desse ideal feminino que “tudo crê, tudo suporta”. E o pior: o filme se chama “mãe” mas ela não é mãe de ninguém e quer apenas desocupar a “casa”, desconfia de todos que pisam em sua propriedade, pois seu amor é dedicado exclusivamente ao homem, seu senhor e marido. Quando ela finalmente concebe uma criança mal tem tempo de ser uma mãe para ele, pois o bebê lhe é arrancado dos braços ao nascer. O nome do filme poderia ser “home!” e o título estaria mais condizente com a história.

As interpretações estão todas excelentes, inclusive a interessante participação de Kristen Wiig, mas é Jennifer Lawrence quem brilha, transmitindo toda decepção da mulher que se vê subestimada e colocada em segundo plano o tempo todo, toda a agonia de ser violentada e ferida por tentar impor limites aos que tentam tirar vantagem de sua cortesia, toda a tristeza de perder um filho e, por fim, toda a fúria de uma mulher que cansou de ser desrespeitada em seus próprios domínios. Pena que ela cai na histeria, comportamento sempre atribuído à mulher que ousa se rebelar contra a submissão. Me senti enganada e também decepcionada por não ver qualquer profundidade na representação do feminino aqui, apenas uma tonelada de clichês.

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