A Forma da Água: Mais um mergulho no mundo fantástico de Guillermo del Toro

Outra vez Guillermo del Toro nos convida a conhecer monstros terríveis e criaturas fantásticas que habitam o universo de sua mente singular. Assim como na obra prima O Labirinto do Fauno, os verdadeiros monstros são humanos.

Mas A Forma da Água difere do Labirinto do Fauno no tom. É mais como um conto de fadas profundamente romântico e surpreendentemente sexy. A fórmula é complexa: Pegue um filme B clássico de monstro, some algum clima de espionagem, acrescente o imortal tema do amor impossível, uma dose do heroísmo tipo E.T de Spielberg, tempere com algum erotismo e muitos “nudes” e…voilà!

Não, não parece fácil. E fica ainda mais impressionante quando essa fórmula é desenvolvida dentro da estética dos filmes do diretor mexicano. São muitas texturas, cores, detalhes. Gotas de chuva contra o vidro, um cinema decadente, mobília antiga, pessoas e objetos vagando, sem peso, por águas translúcidas, a quase ausência de luz do Sol…detalhes do mundo de Del Toro.

Sally Hawkins vive Elisa, a princesa do conto e heroína que resgata o príncipe de sua prisão. Ela não é forte, não usa espada, não cavalga um cavalo branco e nem mesmo tem a figura das princesas clássicas. Elisa parece um moça comum, exceto que não é. Muda desde bebê (suas cordas vocais foram cortadas antes que a jogassem num rio, quando ainda era uma recém-nascida), ela entende as palavras e as não-palavras. Seu melhor amigo é seu vizinho Giles, um ilustrador de propagandas de meia idade que vê seu ofício se tornar obsoleto. Giles não reconhece a própria imagem no espelho e não só por estar envelhecida mas, principalmente por se tratar da imagem de um homem, o que não condiz com sua identidade interior. Sua vida amorosa é um desastre e ele lamenta não ter lutado pelo direito de amar de acordo com sua essência quando era jovem. Sua vida seria absolutamente solitária sem Elisa. Del Toro, de modo soberbo, confronta nossos preconceitos, ao mostrar esse mesmo ser humano discriminando o amor de Elisa como sendo anti natural. É através desse movimento que del Toro agarra a empatia de quem prefere se manter neutro quanto a questões dessa natureza. Sally Hawkins e Richard Jenkins aproveitam a oportunidade que têm nas mãos e se entregam a humanidade de seus personagens.

Já Michael Shannon como o vilão Richard Strickland a não foi tão feliz. Strickland é um agente do governo americano encarregado de pesquisar a estranha criatura capturada num rio da Amazônia. Ele pretende examinar, torturar e dissecar o ser que ele considera uma “afronta contra Deus e a humanidade”. Sua função ali, que é militar e  também política, logo se mistura a um ódio irracional, que no fim se prova a única razão que o motiva a ferir a Criatura. Não vi muitas camadas nesse personagem, teria gostado menos não fosse a presença sólida de Shannon.

A Criatura, por sua vez, é interpretada por Doug Jones, um colaborador frequente nos filmes de del Toro. Com sua figura esguia e elegância graciosa, Jones encarna mais uma criatura fantástica do universo do diretor mexicano. Aqui ele é um anfíbio humanoide que aprende a se comunicar com Sally, a moça muda que trabalha de madrugada no centro de pesquisa como faxineira. Ela lhe traz ovos cozidos para comer e música para escutar nas madrugadas, enquanto eles conversam numa linguagem particular.

A beleza é notável no design, na fotografia, nos diálogos e na construção dos personagens, à ponto de fazer com que nós, espectadores, não sintamos qualquer estranheza na relação entre dois seres tão diferentes, mesmo quando essa relação fica, digamos, íntima.

Ainda sobre o elenco quero destacar a sempre maravilhosa Octavia Spencer como Zelda, companheira de trabalho e amiga fiel de Sally e ainda o ator que está em todas esse ano: Michael Stuhlbarg, que aqui interpreta Dr. Hoffstetler, um cientista que se encontra pressionado por questões políticas a agir contra seus princípios éticos e morais.

A trilha sonora do francês Alexandre Desplat (vencedor do Oscar pela trilha sonora de O Grande Hotel Budapeste) é tocante e enriquece a composição visual sem roubar a cena.

É um filme romântico, encantado, porém com algumas cenas realistas bem cruéis (é del Toro, não Disney). O final fica por conta de cada um. De minha parte, mesmo sendo uma pessimista, agradeço a del Toro pela gentileza de dar a seu público uma bela cena final (real ou não) para guardar na lembrança.

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