Altered Carbon: Pele cyberpunk sem alma filosófica

O Cyberpunk já deixou de ser novidade há algum tempo na TV e no Cinema e Altered Carbon, a nova aposta da Netflix, é mais uma produção do gênero. Mas a série, que tem recebido tantos elogios, é mesmo tão boa assim?

Em um futuro distópico a humanidade tem a oportunidade de enganar a morte. A consciência de cada indivíduo fica armazenada nos chamados “cartuchos”, pequenos dispositivos localizados na nuca de cada pessoa que contém todas as características de sua personalidade, informações que podemos definir como sendo sua alma. Mas esse cartucho pode ser implantado em qualquer corpo produzido através de engenharia genética, caso o corpo original sofra um dano irreversível e venha a morrer. Deste modo o corpo, até então imprescindível à existência da “alma”, passa a ser chamado apenas de “capa”, um item totalmente descartável.

Takeshi Kovacs (Joel Kinnaman) é um terrorista condenado a ter seu cartucho inativo (estado chamado de congelamento) por tempo indeterminado. Após cumprir 250 anos de sua sentença, Laurens Bancroft (James Purefoy), um dos homens mais ricos do planeta, usa sua influência para que Kovacs seja reanimado. Seu objetivo é contratar o criminoso, considerado de altíssima periculosidade, para solucionar seu próprio assassinato.

Os efeitos visuais são espetaculares e salta aos olhos o investimento da Netflix nesse aspecto. As cenas de pancadaria são bem coreografadas, há muitos tiroteios usando armas ultra tecnológicas e o recorrente uso de slow motion mostra cada detalhe de cenas que não economizam na violência gráfica. Além de muito sangue a série explora bastante a nudez e o uso de cenas de sexo. Algumas dessas cenas até tem contexto, mas a maioria são apenas expositivas e desnecessárias na medida que não acrescentam em nada à trama.

O tema não é original e são bem populares os clássicos Blade Runner e Ghost in the Shell, grandes expoentes do gênero que têm influência palpável sobre Altered Carbon (como o clima noir e o tema biopunk). Também é possível ver um pouco de Total Recall e O Quinto Elemento na série.

A premissa traz a investigação do assassinato de Laurens e, à partir disso, desenvolve um monte de tramas paralelas que acabam emaranhadas de forma confusa. Eventos e sub-tramas entram em cena rapidamente e, por vezes, ficam pontas soltas ou surgem soluções fáceis para certas questões. O mistério não consegue instigar o espectador, mesmo tendo dez episódios com média de uma hora cada para dar conta dessa tarefa.

Produções com esse tema geralmente tendem a entrar num campo filosófico à respeito do que significa ser uma pessoa, da existência da alma e de Deus e até sobre o que seria a realidade em si, mas a série parece querer fugir do debate mais profundo, dando apenas leves pinceladas que não intrigam. No entanto é bem mostrado o modo como a possibilidade da imortalidade corrompe o ser humano, ao mesmo tempo que torna a vida banal. Mesmo assim nada muito profundo e Louis e Lestat fazem esse debate infinitamente melhor no livro de Anne Rice Entrevista com o Vampiro.

img2O futurismo mostrado na série contém também alguns elementos retrô como itens religiosos, cigarros que são acesos com fósforos, preconceitos de gênero, vestuário oitentista, entre outras indulgências que são tão desnecessárias quanto batidas nas produções do gênero.

Em alguns momentos os personagens, principalmente do núcleo da família da policial Kristin Ortega (Martha Higareda),  parecem estar perdidos nessa “nova” tecnologia, algo impossível já que é uma realidade vivida há séculos por aquela sociedade. Kovacs, por outro lado, acorda após 250 anos e já está totalmente habituado com a tecnologia atual. Coerência pra quê?

As atuações estão boas, com destaque para Martha Higareda, James Purefoy e Chris Conner, que faz o virtual Poe (baseado no escritor Edgar Allan Poe). Apesar de Joel Kinnaman estar razoavelmente bem, senti falta de mais cenas com Yun Lee, que interpreta o Kovacs “original” com mais profundidade e carisma.

Mesmo algumas pontas tendo ficado em aberto o final consegue concluir a maior parte delas e traz até algumas reviravoltas (algumas forçadas, inclusive).

A série funciona bem como diversão e é um show de cenas muito bem feitas. Se você gosta do estilo cyberpunk enquanto visual e consegue abrir mão de debates filosóficos, essa série lhe cairá bem.

Em tempo:

1- Laurens ressuscitou Kovacs, 250 anos depois de seu congelamento, numa “capa” que havia pertencido a um policial envolvido no cerne do caso de seu próprio assassinato, SEM QUERER! Quais as chances?

2- As pessoas nascem? As pessoas envelhecem? A matemática ficou confusa…

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s