La Casa de Papel: Porquê ela não é tudo isso

Antes de mais nada: esse texto contém uma opinião pessoal e não tem a ambição de ser entendido como verdade, embora possa trazer alguns bons argumentos. Então Tranquilo, no pasa nada

Para começar confesso que demorei para me render e assistir a série do momento, a espanhola La Casa de Papel. Pura besteira minha, claro, mas era tanta gente falando do programa que eu não estava segura se desejava entrar nessa histeria coletiva. Por fim decidi assistir. Maratonei-a, na verdade e, agora que já está concluída a saga do maior assalto da história, o que posso dizer da experiência?

O início da série é realmente cativante, mostrando um projeto ambicioso e cheio de potencial. A série traz um enredo envolvente, onde ação e sensualidade se misturam a doses de comédia e suspense. A produção é bem feita, o elenco traz tipos interessantes, enfim, um show com tudo para se tornar alvo de adoração. Mas, aos poucos, a casa de papel começa a se despedaçar diante de mim. Vou listar aqui os pontos mais fracos dessa série com ares de novelão mexicano:

– Tóquio (Úrsula Corberó):

A protagonista e narradora à princípio parece ser uma personagem instigante e cheia de camadas, mas acaba se mostrando apenas uma borderline insuportável, sem qualquer habilidade específica para justificar sua participação no grupo, com dificuldade de raciocínio e que, por isso, coloca toda a operação em perigo por várias vezes. Há uma situação envolvendo a personagem perto do final que é simplesmente inacreditável (da maneira mais negativa possível) e, ao invés de mostrar uma heroína badass, reforça a noção de que a força de elite encarregada de resolver o caso é composta por gente realmente estúpida e incapaz, gente parva mesmo. Como narradora sua voz também é irritante e chega uma hora em que se deseja apenas que ela fique quieta. Seu verdadeiro valor no show acabou sendo o talento para ficar pelada e transar com o garoto da TI. Há quem julgue esse um belo talento.

– Casal sem química, sem sal e sem açúcar:

Acho o enunciado bem autoexplicativo, mesmo assim quero deixar bem claro: estou me referindo ao casal Tóquio/Rio. Não desce!

– Intenção de fazer uma crítica e tornar a ação um ato político falha completamente:

Aos poucos vamos compreendendo as razões por trás do plano megalomaníaco. Roubar a Casa da Moeda seria uma resposta às injustiças cometidas pelo sistema, um golpe direto nos bancos. À princípio o carisma de alguns personagens quase te faz cair na armadilha de querer torcer cegamente pelos fora da lei, mas basta uma segunda olhada para perceber algunas cositas más, como por exemplo: qual o nível de desenvolvimento dos personagens do outro lado da situação? Em qual momento vemos um pouco da vida do agente Suárez (Mario de La Rosa), por exemplo? Ele poderia ter uma família em casa, angustiada à sua espera pelos longos dias em que durou a operação. O salário dele talvez não fosse lá tão bom, talvez estivesse com dificuldade para bancar a faculdade da filha, com um empréstimo no banco que mal desse conta de cobrir. Talvez, internamente, ele mesmo já tivesse sonhado em roubar uma quantia milionária e fugir, mas escolheu seguir com sua vida. Enfim, nenhum histórico que pudesse humanizar esse personagem nos é mostrado, apenas um homem de pedra, frio e inflexível. E o outro, o Coronel Prieto (Juan Fernández)? Típico vilão misógino detestável! Angel (Fernando Soto), o Antônio Calloni castelhano, não passa de um marido infiel e beberrão que não para de assediar a coleguinha. Do lado dos reféns temos nosso famoso Arturito (Enrique Arce), o único que não desiste de desafiar seus sequestradores. Como ele é mostrado? Outro homem execrável. Dá pra torcer pelos “mocinhos”? Não. Ainda assim, com os mocinhos feitos sob medida para serem odiados, dá para justificar um assalto com direito a reféns e pessoas feridas e mortas? Se seu pai tentar roubar um banco e morrer devido a ação da polícia, só vai te restar pegar o plano dele e fazer dar certo, como homenagem? Se sim então não esqueça de associar seu ato à algum movimento de resistência contra o fascismo. Ah! Não esqueça também de fazer a comparação com Robin Hood. O lance de tirar dos ricos e dar aos pobres sempre ganha simpatia, mesmo quando é, literalmente, justificativa para uma meia dúzia ficar tão podre de rica que cada um pode ter sua própria ilha. O tal plano Chernobyl (mencionado por nada) parecia bem mais interessante, no fim das contas. Já dizia o Coringa: “Não se trata de dinheiro, se trata de passar uma mensagem”. Enfim, os pobres seguem oprimidos, mas agradecem o espetáculo.

(Spoilers)

– O Final “facepalm” :

Ok, deu tudo certo para uma das quadrilhas mais queridas da atualidade. Já a inspetora Raquel (Itziar Ituño) se não perdeu a carreira e a guarda da filha foi por milagre, mas disso não saberemos nunca. E importava saber? Ao que parece não. Só importava saber quando ela reencontraria o enigmático Professor (Álvaro Morte). Tipo encerramento de novela mesmo, sabe? Faltou só ela ir com uma criança nos braços, de óculos e cabeleira negra, para não deixar o público em dúvida. Espera! Faltou mesmo só isso? Não, faltou muito mais!

Faltou explicarem como Raquel conseguiria fazer uma viagem internacional sem que os federais estivessem na cola. Talvez, após o reencontro do casal, a polícia tenha enquadrado ambos, mas isso não foi mostrado, acho que mais por não ter passado pela mente do criador da série, o Alex Pina. Viva o romance!

Faltou explicarem como Raquel chegou no barzinho lá na Cochinchina num dia completamente aleatório e já estava sendo esperada pelo Professor (isso sim é timing!) que, aliás, nem demonstrou qualquer surpresa por sua amada estar de novo sem bateria!! Antecipando tudo, como de costume, o galã trazia seu carregador da sorte no bolso.

Faltou explicarem como Raquel sumiria para o oriente com sua filha, com o ex em seus calcanhares. O sonho foi bonito por uma cena, não se atreva a pensar no que viria depois, provavelmente só tragédia.

O que poderia ter sido feito sobre o final?

À principio, se estivesse em minhas mãos, eu deixaria morrer Sérgio e Andrés lado a lado. Ficaria claro que a intenção de ambos não era serem ricos. Viveriam apenas o suficiente para não se tornarem vilões (olha eu citando o Coringa de novo). O ato deles causaria um impacto muito maior nas pessoas, inclusive em Raquel, que poderia repensar sua tendência de ver tudo em preto e branco.

Se essa não fosse uma possibilidade então, para eliminar as principais pontas soltas eu:

A- Daria um sumiço no ex (um fim dado por uma atual namorada em legítima defesa seria bem adequado).

B- Para viabilizar uma viagem para o exterior a Raquel sem levantar suspeitas, faria uma cena mostrando que, durante a visita dela à Casa da Moeda, seus pertences (especialmente documentos) ficaram em posse dos sequestradores, possibilitando a Nairóbi (sob ordens do Professor) fabricar um passaporte falso para a inspetora sem que ela mesma suspeitasse. Um movimento digno de enxadrista.

C- Para desfazer a aleatoriedade do encontro mostraria uma ligação da parte do Professor feita de um telefone desconhecido, talvez até por uma terceira pessoa (tipo um “laranja”), para Raquel, na qual ela receberia as coordenadas e orientações para o encontro, tapando esse buraco sem tomar muito tempo.

-Sobre como Sérgio faria para trazer também a filha e a mãe de Raquel para junto deles sem parecer suspeito isso não sei. Não sou obrigada a saber de tudo, né?

Em tempo: Alba Flores como Nairóbi, Álvaro Morte como O Professor e Pedro Alonso como Berlin quase foram capazes de salvar a série para mim. Pelo menos tornaram a experiência algo que valeu a pena. Horas desperdiçadas que ficavam agradáveis cada vez que um deles aparecia na tela.

É isso. Concordam? Discordam até a alma? Comentem!

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